⬅ Voltar ao Dashboard 1º Bimestre — Fundamentos e Modelos

📾 Ethernet — IEEE 802.3

Aula 6 — A tecnologia que domina as LANs: CSMA/CD, estrutura do quadro, endereço MAC e a evolução do Ethernet de 10 Mbps até 100 Gbps

📜 A Origem do Ethernet

Em 1973, Robert Metcalfe e David Boggs, trabalhando na Xerox PARC, desenvolveram a primeira versão do Ethernet para conectar computadores Alto a uma impressora laser. O nome “Ethernet” vem do conceito físico de éter — o meio imaginário pelo qual a luz se propagaria no espaço.

Em 1983, o IEEE (Institute of Electrical and Electronics Engineers) padronizou o Ethernet como IEEE 802.3, tornando-o aberto e adotável por qualquer fabricante. Isso foi fundamental para sua expansão: hoje o Ethernet é a tecnologia de rede local mais usada no mundo, presente em data centers, empresas, escolas e residências.

1973 Xerox PARC Metcalfe e Boggs criam o Ethernet experimental a 2,94 Mbps em cabo coaxial
1983 IEEE 802.3 Padronização oficial: 10BASE-5 (10 Mbps em cabo coaxial grosso)
1995 Fast Ethernet 100 Mbps com par trançado (100BASE-TX), ampla adoção corporativa
Hoje Até 400 Gbps 400GbE já é realidade em data centers modernos com fibra óptica

🚦 CSMA/CD — Acesso ao Meio Compartilhado

Nas primeiras redes Ethernet, todos os dispositivos compartilhavam o mesmo cabo (barramento). Era preciso um método para evitar que dois dispositivos transmitissem ao mesmo tempo e corrompessem os dados. A solução foi o CSMA/CD — Carrier Sense Multiple Access with Collision Detection.

Como o CSMA/CD funciona — passo a passo
  1. CARRIER SENSE (CS) — "Ouvir antes de falar"
     O dispositivo verifica se o cabo está livre (sem sinal).
     Se livre → começa a transmitir.
     Se ocupado → espera até o cabo ficar livre.

  2. MULTIPLE ACCESS (MA) — "Todos acessam o mesmo meio"
     Qualquer dispositivo pode transmitir quando o cabo está livre.
     Não há reserva de canal ou prioridade.

  3. COLLISION DETECTION (CD) — "Detectar colisão enquanto transmite"
     Se dois dispositivos transmitirem simultaneamente → COLISÃO.
     Os sinais se misturam e corrompem ambas as transmissões.

  4. JAM SIGNAL — "Avisar a todos sobre a colisão"
     O dispositivo que detecta a colisão envia um sinal de jam (32 bits)
     para garantir que todos saibam que houve colisão.

  5. BACKOFF EXPONENCIAL — "Esperar tempo aleatório e tentar de novo"
     Cada dispositivo espera um tempo aleatório (algoritmo de backoff)
     antes de tentar retransmitir.
     A cada colisão, o tempo máximo de espera dobra (até 16 tentativas).

⚠️ CSMA/CD é praticamente obsoleto hoje. Switches modernos operam em full-duplex: cada dispositivo tem seu próprio par de fios exclusivo para transmissão e recepção simultâneas, eliminando colissões completamente. O CSMA/CD só existia em redes half-duplex com hubs e barramentos compartilhados.

Half-duplex Uma direção por vez Como um walkie-talkie: transmite OU recebe, nunca os dois ao mesmo tempo. Exigia CSMA/CD
Full-duplex Duas direções simultâneas Como um telefone: transmite E recebe ao mesmo tempo. Padrão em switches modernos, sem CSMA/CD

📦 Estrutura do Quadro Ethernet

O quadro (frame) é a PDU da camada de enlace — a unidade de dados que o Ethernet transmite. Cada quadro carrega os endereços MAC de origem e destino, o tipo de protocolo, os dados e um campo de verificação de erros.

Estrutura do quadro Ethernet II (IEEE 802.3)
  ┌──────────┬─────┬─────────────┬─────────────┬───────────┬──────────────────┬─────┐
  │Preâmbulo │ SFD │  MAC Destino│  MAC Origem │EtherType/ │      Dados       │ FCS │
  │ 7 bytes  │1 b  │   6 bytes   │   6 bytes   │  Length   │  46 – 1500 bytes │4 b  │
  │          │     │             │             │  2 bytes  │                  │     │
  └──────────┴─────┴─────────────┴─────────────┴───────────┴──────────────────┴─────┘
  Total mínimo: 64 bytes (sem preâmbulo/SFD)
  Total máximo: 1518 bytes (sem preâmbulo/SFD)
Campo Tamanho Função
Preâmbulo 7 bytes Sequência alternada de 1s e 0s (10101010…) para sincronizar o clock do receptor
SFD (Start Frame Delimiter) 1 byte Indica o início do quadro (10101011). O último bit “1” sinaliza que os dados começam
MAC Destino 6 bytes Endereço MAC do dispositivo que deve receber o quadro
MAC Origem 6 bytes Endereço MAC do dispositivo que enviou o quadro
EtherType / Length 2 bytes Indica o protocolo da camada superior: 0x0800 = IPv4, 0x0806 = ARP, 0x86DD = IPv6, 0x8100 = VLAN (802.1Q)
Dados (Payload) 46–1500 bytes O conteúdo — normalmente um pacote IP. Se menor que 46 bytes, padding zeros são adicionados
FCS (Frame Check Sequence) 4 bytes CRC-32: valor calculado sobre o quadro inteiro. O receptor refaz o cálculo; se diferente, o quadro é descartado

MTU (Maximum Transmission Unit): o campo de dados do quadro Ethernet tem no máximo 1500 bytes. Esse valor é o MTU padrão do IP. Quadros maiores (Jumbo Frames, até 9000 bytes) são usados em data centers para reduzir overhead, mas precisam ser configurados explicitamente.

🏷️ Endereço MAC

O endereço MAC (Media Access Control) é o identificador único de cada interface de rede no nível da camada de enlace. Diferente do endereço IP (que pode mudar), o MAC é gravado na memória ROM da placa de rede pelo fabricante — por isso é chamado de endereço físico ou endereço de hardware.

Estrutura do endereço MAC (48 bits = 6 bytes)
  Exemplo:  A8 : 5E : 45 : F3 : 2B : 7C
            ──────────────   ────────────
            OUI (3 bytes)    NIC (3 bytes)
            Identificador    Identificador
            do fabricante    único da placa

  OUI — Organizationally Unique Identifier
        Atribuído pelo IEEE a cada fabricante.
        A8:5E:45 → Intel Corporation (exemplo)

  NIC — Network Interface Controller portion
        Atribuído pelo próprio fabricante para cada placa.

  Representações aceitas:
    A8:5E:45:F3:2B:7C  (Linux/macOS — dois pontos)
    A8-5E-45-F3-2B-7C  (Windows — hífen)
    A85E.45F3.2B7C     (Cisco IOS — ponto a cada 2 bytes)

Tipos de Endereço MAC

Unicast Um para um Bit menos significativo do primeiro byte = 0. Identifica uma única interface. Ex: A8:5E:45:F3:2B:7C
Multicast Um para muitos Bit menos significativo do primeiro byte = 1. Envia para um grupo de dispositivos registrados
Broadcast Um para todos Todos os bits = 1: FF:FF:FF:FF:FF:FF. Todo dispositivo na LAN recebe e processa

MAC e ARP

O IP trabalha com endereços lógicos, mas o Ethernet precisa de endereços MAC para entregar o quadro na LAN. O ARP (Address Resolution Protocol) faz essa ponte:

Como o ARP funciona
  PC-A quer enviar um pacote para IP 192.168.1.10, mas não sabe o MAC.

  1. PC-A envia um ARP Request em broadcast:
     "Quem tem o IP 192.168.1.10? Me diga seu MAC."
     Destino MAC: FF:FF:FF:FF:FF:FF (broadcast)

  2. PC-B (192.168.1.10) responde com ARP Reply em unicast:
     "Eu tenho esse IP. Meu MAC é B4:2E:99:1A:C7:F0."

  3. PC-A armazena a resposta na tabela ARP (cache):
     192.168.1.10 → B4:2E:99:1A:C7:F0

  4. A partir daí, PC-A usa o MAC diretamente sem novos ARPs.
     (O cache ARP expira após alguns minutos.)

  Comando para ver a tabela ARP:
    arp -a          (Windows e Linux)
    ip neigh show   (Linux moderno)

⚡ Evolução do Ethernet

O Ethernet evoluiu de 10 Mbps em cabo coaxial para centenas de gigabits em fibra óptica, mantendo a mesma estrutura de quadro — o que garante compatibilidade retroativa entre equipamentos de diferentes gerações.

Padrão Velocidade Meio Distância máx. Status
10BASE-5 10 Mbps Coaxial grosso (RG-8) 500 m Obsoleto
10BASE-2 10 Mbps Coaxial fino (RG-58) 185 m Obsoleto
10BASE-T 10 Mbps UTP Cat 3 ou superior 100 m Legado
100BASE-TX (Fast Ethernet) 100 Mbps UTP Cat 5e ou superior 100 m Ainda em uso
1000BASE-T (Gigabit) 1 Gbps UTP Cat 5e ou superior 100 m Padrão atual
10GBASE-T 10 Gbps UTP Cat 6A ou superior 100 m Data centers / corporativo
10GBASE-SR 10 Gbps Fibra multimodo (OM3/OM4) 300–400 m Data centers
40GBASE / 100GBASE 40 / 100 Gbps Fibra óptica Varia Backbone e data centers

Como ler o nome do padrão: 1000BASE-T significa: 1000 = velocidade em Mbps, BASE = banda base (não modulado), T = meio (T = Twisted pair, S = Short fiber, L = Long fiber, X = extensão média).

💻 Ethernet Hoje: Switches, VLANs e PoE

Switches e Domínios de Colisão

O switch substituiu o hub e revolucionou o Ethernet. Enquanto o hub retransmite tudo para todas as portas (um único domínio de colisão), o switch aprende os MACs de cada porta e encaminha quadros apenas para o destino correto — cada porta é seu próprio domínio de colisão isolado, operando em full-duplex.

Tabela MAC do switch (MAC Address Table)
  O switch mantém uma tabela associando MACs às portas físicas:

  Porta │ MAC Address        │ VLAN │ Tipo
  ──────┼────────────────────┼──────┼──────────
  Fa0/1 │ A8:5E:45:F3:2B:7C │   1  │ Dinâmico
  Fa0/2 │ B4:2E:99:1A:C7:F0 │   1  │ Dinâmico
  Fa0/3 │ C0:FF:EE:12:34:56 │  10  │ Estático
  Gi0/1 │ — (uplink)        │ all  │ Trunk

  Quando chega um quadro para A8:5E:45:F3:2B:7C,
  o switch envia apenas para Fa0/1, sem inundar as demais portas.

  Se o MAC não estiver na tabela → flooding (envia para todas as portas).

VLANs — IEEE 802.1Q

Uma VLAN (Virtual LAN) segmenta logicamente uma rede física em múltiplas redes virtuais isoladas. Dispositivos em VLANs diferentes não se comunicam diretamente — precisam de um roteador ou switch Layer 3.

O padrão IEEE 802.1Q adiciona uma tag de 4 bytes ao quadro Ethernet (entre MAC origem e EtherType), contendo o ID da VLAN (1–4094). Portas trunk carregam tráfego de múltiplas VLANs; portas access pertencem a uma única VLAN.

PoE — Power over Ethernet

O PoE (IEEE 802.3af/at/bt) permite transmitir energia elétrica pelo cabo UTP junto com os dados, eliminando a necessidade de fontes de alimentação separadas.

802.3af (PoE) Até 15,4 W Telefones IP, pontos de acesso Wi-Fi simples, câmeras IP básicas
802.3at (PoE+) Até 30 W Access points Wi-Fi 6, câmeras PTZ, thin clients
802.3bt (PoE++) Até 90 W Laptops, telas digitais, access points Wi-Fi 6E de alta performance

📝 Atividade Prática

Analisar quadros, endereços MAC e comportamento do switch Ethernet.

1
Interpretar endereços MAC
Para cada endereço MAC abaixo, identifique: (a) se é unicast, multicast ou broadcast; (b) qual o OUI (3 primeiros bytes); (c) a representação equivalente no padrão Cisco. Endereços: (1) FF:FF:FF:FF:FF:FF; (2) 01:00:5E:00:00:01; (3) 3C:22:FB:A4:12:09; (4) 00:50:56:C0:00:08. Dica: use o comando arp -a no seu computador para ver MACs da sua rede local.
2
Dissecar um quadro Ethernet
Dado o seguinte quadro Ethernet em hexadecimal (simplificado), identifique cada campo: FF FF FF FF FF FF | A8 5E 45 F3 2B 7C | 08 06 | [dados ARP...] | A1 B2 C3 D4. (a) Qual o MAC de destino? É unicast, multicast ou broadcast? (b) Qual o MAC de origem? (c) O que indica o EtherType 0x0806? (d) Qual campo é o FCS? (e) Por que é um pacote ARP e não IP?
3
Simular a tabela MAC de um switch
Um switch de 4 portas inicia com a tabela MAC vazia. Trace o que acontece em cada etapa: (a) PC-A (Fa0/1, MAC AA) envia um quadro para PC-B (MAC BB), mas BB ainda não está na tabela. Quais portas recebem o quadro? (b) PC-B responde. O que muda na tabela? (c) PC-A envia novamente para PC-B. Agora quais portas recebem? (d) Por que o switch é mais eficiente que o hub?
4
Pesquisar e aplicar PoE
Uma escola quer instalar 8 câmeras IP (consumo de 12 W cada) e 4 access points Wi-Fi 6 (consumo de 25 W cada). (a) Qual padrão PoE atende cada dispositivo? (b) Qual a potência total necessária do switch PoE? (c) Pesquise um switch gerenciável de 24 portas com PoE+ compatível com esse cenário e registre o modelo e preço aproximado.
5
👥 Trabalho em grupo — Debate hub vs. switch vs. roteador
(Aprendizagem Baseada em Equipes — grupos de 3–4 alunos) Cada grupo recebe um dispositivo para “defender”: hub, switch L2, switch L3 e roteador. O grupo deve explicar: (a) em qual camada OSI opera; (b) como encaminha dados (broadcast, MAC, IP); (c) quando ainda faz sentido usar; (d) qual a limitação principal. Após as apresentações, a turma monta na lousa uma hierarquia de rede completa posicionando cada dispositivo. Debatam: por que ainda se vende hub hoje? Existe justificativa técnica?
6
🧩 Computação desplugada — CSMA/CD humano
(Metodologia ativa — sem computador) Simule o CSMA/CD com a turma: cada aluno é um dispositivo de rede. Usem um “cabo” imaginário representado por uma fita no chão — só pode falar quem estiver com o microfone (um objeto qualquer). Regras: (a) antes de falar, espere silêncio (“carrier sense”); (b) se dois falarem juntos, ambos param (“colisão”), contam até um número aleatório (backoff) e tentam de novo. Depois, refazer a simulação sem o CSMA/CD — caos! Reflit am: o que muda quando um switch isola as convers as? Por que eliminar colisões aumenta a vazão? A atividade é adaptável: alunos podem usar escrita em quadro branco ou comunicação por sinais.
📌 Para refletir: o Ethernet é uma das tecnologias mais bem-sucedidas da história da computação. Em 50 anos, sua velocidade cresceu mais de 40 milhões de vezes — de 2,94 Mbps para 400 Gbps — mantendo a mesma estrutura fundamental de quadro. Entender o Ethernet é entender a base sobre a qual toda rede local moderna é construída.

❓ Verifique seu Conhecimento

Qual campo do quadro Ethernet é responsável pela detecção de erros de transmissão, permitindo ao receptor descartar quadros corrompidos?

APreâmbulo
BFCS (Frame Check Sequence)
CEtherType
DSFD (Start Frame Delimiter)
✓ O FCS (4 bytes, CRC-32) é calculado sobre o conteúdo do quadro pelo emissor. O receptor refaz o cálculo e compara: se diferente, o quadro foi corrompido e é descartado silenciosamente. O preâmbulo sincroniza o clock; o SFD marca o início; o EtherType indica o protocolo da camada superior.

O endereço MAC FF:FF:FF:FF:FF:FF é um endereço:

AUnicast — identifica uma única placa de rede
BMulticast — envia para um grupo de dispositivos
CLoopback — usado para testes internos da placa
DBroadcast — recebido por todos os dispositivos da LAN
✓ FF:FF:FF:FF:FF:FF é o endereço de broadcast Ethernet: todos os 48 bits em 1. Qualquer dispositivo na mesma LAN recebe e processa o quadro. É usado pelo ARP Request, DHCP Discover e outros protocolos que precisam alcançar todos na rede local.

Por que o CSMA/CD tornou-se irrelevante nas redes Ethernet modernas?

AO IPv6 eliminou a necessidade de controle de colisão
BOs cabos Cat 6A absorvem as colisões fisicamente
CSwitches modernos operam em full-duplex, onde cada porta tem seu próprio domínio de colisão e não há meio compartilhado
DO IEEE 802.3 removeu o CSMA/CD da especificação em 2010
✓ Switches criam domínios de colisão isolados por porta e operam em full-duplex — cada dispositivo transmite e recebe simultaneamente em pares dedicados, sem compartilhamento de meio. Sem meio compartilhado, não há colisão, tornando o CSMA/CD desnecessário. Hubs (meio compartilhado) praticamente desapareceram.

Um switch recebe um quadro cujo MAC de destino não está em sua tabela MAC. O que ele faz?

AEncaminha o quadro para todas as portas, exceto a de origem (flooding)
BDescarta o quadro e solicita reenvio ao remetente
CEncaminha apenas para a porta de uplink (gateway)
DEnvia um ARP Request para descobrir a porta correta
✓ Quando o MAC de destino não está na tabela, o switch faz flooding: encaminha o quadro para todas as portas, exceto a de origem. Quando o destinatário responde, o switch aprende seu MAC e porta, e as próximas transmissões já são encaminhadas diretamente. O ARP é função do IP (camada 3), não do switch (camada 2).